Ando meio sumida daqui, não é verdade? Juro que não é por querer. Ando super oculpada por esses dias. É, mais oculpada ainda, mais oculpada do que antes. O meu trabalho está pegando pesado.
Pra que vocês entendam, eu trabalho no que eles chamam de Staffing Company. A tradução mais aproximada seria uma agência de emprego. Só que neste caso os meus clientes são as empresas, não propriamente as pessoas que estão procurando trabalho. Eu arrumo gente para as empresas mais do que emprego para as pessoas, se é que isto faz algum sentindo.
Só que somos especializados na área de IT (Informação Technológica). Somente IT, e nada mais.
Eu sou uma Technical Recruiter, eu trabalho diretamente na linha de frente, preenchendo essas vagas das empresas clientes. Eu vivo em boards como Monster.com, pesquisando currículo das pessoas, lendo, investigando, fazendo um match entre esses currículos e o que as empresas estão procurando. Eu vivo no telefone do momento que eu entro lá, até a hora de ir embora. Eu faço em média de 80 a 100 telefonemas por dia, conversando com Network Engineers, Software Engineers, PC Technicians, Project Managers, etc, etc.. Entrevistando essas pessoas, conversando à respeito da minha empresa, falando à respeito das possibilidades de empregos. Esta maneira de arrumar emprego é prática muito comum nos Estados Unidos.
O nosso departamento é dividido por equipes, eu trabalho na equipe de Projetos. Empresas como Hewlet Packard, fazem negócio com os Correios Americanos por exemplo, para vender as suas impressoras para toda a rede de correios. Daí eles vêm até empresas como a minha, atrás da mão de obra que vai fazer as instalações dessas impressoras. É um acordo milionário! Os Correios Americanos pagam a HP pelas impressoras, e HP nos paga pelos téchnicos que vão instalar essas impressoras. Como postos dos correios existe em todo lugar, imagine o tamanhão deste projeto. É aí que eu entro, porque eu sou a pessoa que vai arrumar téchnicos para ir a cada um desses lugares, coordenar a hora e o dia, negociar preços de instalação.
Só que nos últimos dois meses, o número de projetos como este em cima da minha mesa quase que triplicou. Fora os Correios, também tenho um Projeto com todas as Dunkin Donuts do País, instalando routers nas suas registradoras, tenho um com a rede de supermercados Safeways, instalando impressoras que imprimem cupons, tenho uma com o Departamento de Seguro Social, instalando computadores novos nos seus escritórios, e finalmente, um com o órgão do Governo DCMA.
Já deu pra sacar que eu ando pra lá de ocupada. Na semana passada não saí do trabalho antes das 7 da noite. E olhe que o meu horário é de 8 às 5:30 da tarde.
Pois é, tenho andado muito cansada. Este trabalho para mim foi um pulo na minha carreira profissional. Venho trabalhando neste tipo de empresa aqui nos Estados Unidos a mais de 8 anos. Quando mudei de emprego em 2005, estava a procura justamente de uma promoção. De pular para a linha de frente como Technical Recruiter, já que antes eu auxiliava technical recruiters. O Technical Recruiter trabalha mais, mas ganha mais. Além de um salário base, também ganho comissão. Quanto mais trabalho eu tenho, mais dinheiro eu ganho, entende?
Mas vou confessar que não estava preparada para essa empresa. A minha empresa é única, eu penso. Vai começando que é um lugar super chique, um ambiente refinado, piso de mármore italiano, misturado a cerejeira. Móveis Hitchcock de Connecticut, uma cadeira custa $400 dólares. O maior conforto, cozinha toda equipada para os funcionários, até água Perrier tem nas geladeiras. Computadores enormes, laptops para levar pra casa, pagam pelo meu celular, estou para receber uma blackjack.
Promovem festas chiquérrimas para os funcionários. As duas últimas festas de Natal, uma foi no Roseclift, mansão de festas carérrima de Rhode Island, e a outra foi no Museu JFK aqui de Boston. Com direito a banda, open bar a noite inteira, festa totalmente black-tie. No ano passado nos levaram para um dia de lazer no Cassino Foxwoods. Pagaram tudo, até pelo spa do cassino, com direito a massagem, facial, pedicure, manicure, etc..
A duas semanas atrás alugaram o cinema local para os funcionários, e nos levaram para assistir The Pursue of Happyness, com Will Smith, porque consideraram o filme inspirador (e é).
O que tem de errado nisso tudo? Nada. O problema é que o que nos dão, exigem de troco o triplo.
Pra quem pensa que americano é um povo preguiçoso. Não é não. Americano é um povo obsecado por trabalho. Tiram férias em migalhas, um diazinho aqui, um diazinho ali. Almoçam muitas vezes nas suas mesas mesmo, olhando para tela do computador, chegam no trabalho 15 minutos antes, e vão embora 2 horas mais tarde do que deveriam. Tomam café da manhã no trânsito, a caminho do trabalho. A minha empresa abusa disso. Faz disso quase que uma exigência.
Quando entrei lá não entendi porque tanta gente desistia o tempo todo. Era como se houvesse uma porta giratória na frente, entra um, sai outro, sai mais outro, entra mais um...
Agora depois de um ano, eu entendo. Mas como eu não sou de desistir fácil, o lugar para mim se tornou um desafio. Se eu me der bem neste lugar, tudo mais será fichinha.
Eles têm umas práticas lá que muitas vezes penso se é ilegal. Por exemplo, veio uma moça entrevistar para o meu time, não contrataram ela, e o motivo foi porque ela era mãe solteira de um bebê de 9 semanas. Claro que ela não ficou sabendo disso, mas depois nós ficamos. Achei que foi até melhor pra moça, pois acho que aquele lugar não combina com uma mãe de um bebezinho. As coisas são muito difíceis para nós mães neste País. Babysitter é caro, daycare é caro, as horas de trabalho são intensas, e ainda mais lá na minha empresa. Mas a discriminação gritou, não foi não? Pra mim, com o meu filho de 5 anos, já indo para escola, com um marido que tem o próprio negócio e trabalha em casa, com horários bem flexíveis, tem sido complicado conciliar, imagina uma moça solteira, com um bebezinho. Fiquei com pena dela, mas ao mesmo tempo, achei que ela nem sabe do que se safou.
Vou confessar uma coisa. Estou dando à esta empresa tipo assim mais um ano do meu suor e sacrifício. Depois disso vou pular fora. Vou arrumar um meio termo. Horários menos ridículos, mais tempo para mim e minha família, e pode ser até um salário menor mesmo.
A vida de quem trabalha neste País não é mole não, hein!
Desculpa o livro, e se você leu tudinho, benzadeus! Tá explicado a ausência? hehe!