Andava num passo devagar, entediado, cansado da rotina. Fazia mais de um ano que eu havia terminado meu último namoro, e tinha sido um daqueles que deixa a gente desiludida por um tempo, de pé atrás, sem confiança no sexo oposto.
Falamos de mais outros assuntos, e desligamos.
Mais ou menos umas 3 semanas depois o carteiro me entrega um envelope grande, desses amarelos, bem pesadinho, endereçado pelo meu amigo nos EUA. O que seria? Ai que curiosidade!
Quando abri, uma enxurrada de cartas caiu no meu colo. No meio delas, uma cartinha do meu amigo que dizia "Surprise!", e um corte de jornal pequenininho clipado à ela. O danado, imaginem vocês, havia tomado a liberdade de colocar o meu nome no Boston Phoenix Paper, a área de Personals, dedicada aqueles que querem arrumar namorado(a). O corte de jornal era o anúncio, e dizia mais ou menos assim "Brazilian, sincere, looking for long term relationship"..
Eu não sabia nem o que dizer. Muito surpresa, mas interessada, comecei a olhar as cartas, haviam muitas, homens para todos os gostos: morenos, loiros, solteiros, divorciados, até viuvos.. Alguns mandaram fotos logo de cara.
Comecei a ler cartinha por cartinha. No começo não botei muita fé nessa de arrumar namorado por correspondencia, especialmente porque notei que todos esses rapazes pensavam que eu morava nos Estados Unidos, mas precisamente na mesma cidade que eles: Boston. Meu amigo falhou em mencionar um detalhe muito importante, o de que eu morava no Brasil.
Mesmo assim, fiz uma seleção, as que eu achava que eram interessantes o suficiente para responder. O mais novo tinha 17 anos (umm, muito novinho pra mim. Passo!).. O mais velho, nunca me disse a idade, mas era viuvo, e se dizia muito mais velho que eu (após algumas cartas cansei do mistério, passei também).
Isso foi anterior a era da Internet, antes dos emails e .coms tomarem conta da vida da gente.
Uma semana mais tarde, recebi um outro envelope do meu amigo, que dizia bem assim "Guess what" logo no envelope.
Pois é, mais cartas. Foi neste segundo envelope que veio a carta de Paul. Me chamou atenção logo de cara pela letra bem escrita, a simplicidade, e a maneira direta e honesta como ele me falou dele. E este era o começo de tudo.
Por um bom tempo ainda me correspondi com alguns dos outros rapazes, apesar de que com os outros foi ficando cada vez mais estabelecido um clima que era mais de amizade, enquanto com Paul a química era bem maior.
Lá para a terceira ou quarta carta, ele me enviou o telefone dele, dizendo pra ligar à cobrar. Não tive coragem. Na carta seguinte, ele então me pediu o meu. Eu dei. Uma semana mais tarde, mais ou menos o tempo que leva para uma carta ir do Brasil aos EUA, ele ligou.
A conversa, apesar de tímida, e ambos um pouquinho nervosos, anciosos, foi uma conversa legal, simple, honesta, exatamente como ele havia me passado nas cartas. Ele tentou dizer umas poucas palavras em Português. Eu caprichei no meu inglês, e botei em prática os anos de cursinho.
Pronto, daí por diante, as cartas foram ficando mais excassas, enquanto os telefonemas foram aumentando e ficando mais frequentes.
Logo, logo, todos ao meu redor começaram a se acostumar em ouvir o nome dele, "Paul me ligou hoje", ou "vou pra casa porque Paul vai me ligar", ou "Falei com Paul ontem", ou "Paul me contou uma estória assim assado no telefone esta semana"... Ele virou parte da familia, parte da minha realidade, da minha rotina.
Por um pouco mais de um ano, nos falamos quase todas as semanas por telefone, trocamos cartões de Aniversário, Natal, Dia dos Namorados, fotografias, e assim por diante.
Quando Paul apareceu no Brasil para me conhecer pessoalmente, um pouco mais de um ano depois que trocamos a nossa primeira correspondência, nós já sabíamos que estávamos destinados um ao outro. Porque existem coisas nesta vida que acontecem desse jeito, e não adianta tentar explicar, ou controlar, ou brigar contra. E nós não tentamos controlar, ou explicar, ou brigar contra. Apenas seguimos o rumo do coração, e sim, da cabeça também, porque neste caso, a cabeça concordou que o momento era certo.
Numa tarde meio nublada, nós fomos passear pelas areias de Boa Viagem. Nos sentamos de frente pro mar, e ele começou a falar tudo aquilo que eu já sabia que viria. E assim, ele me perguntou se eu queria casar com ele. Assim, simples, lá na praia. A resposta foi sim, claro.
Nos casamos em Dezembro daquele mesmo ano (1994), mas por burocracia da Imigração só me mudei para cá em Maio de 95. Daí, por outra burocracia da Imigração, tivemos que casar aqui novamente. Então casamos no dia 30 de Junho de 1995. Como não começamos a nossa vida juntos até Maio de 95, então passamos a celebrar a segunda data como a oficial.
Pois é, hoje estamos fazendo 10 anos de casados. O tempo passa rápido! Mas também vem nos provar que amores que começam assim são completamente possíveis, existem, sobrevivem, são fortes, e geram frutos. E quem tem medo de seguir o coração, pode estar sabotando a própria felicidade.
Happy Anniversary to Paul and I!













































